Línguas indígenas, pesquisa e preservação

Línguas indígenas, pesquisa e preservação é o assunto desta edição do UFPA Entrevista com Eduardo Vasconcelos, professor do programa de pós-graduação em letras da Unifap e vice coordenador do Grupo de Estudos sobre Línguas e Culturas Indígenas da Amazônia (GELCIA) e do Simpósio de Pesquisa em Línguas Indígenas – Região Norte (SIPLI – NORTE); Agenor Lopes Paumari, Presidente da Organização de Articulação no Desenvolvimento do Povo Paumari e Apurinã do Maraha (OADPAM) e o professor Valdimiro Apurinã, coordenador da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp).

Estima-se que 75% das línguas indígenas do território brasileiro tenham sido perdidas desde a chegada dos europeus. Segundo o Atlas das Línguas em Perigo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 190 línguas indígenas estão em risco de extinção no país e ameaça recai também sobre o arcabouço cultural produzido por esses povos. Assim, os entrevistados abordam os desafios para salvaguardar essas línguas, a partir da relação entre comunidades e Universidade.

Liderança do povo Paumari e Apurinã, Agenor Paumari expõe algumas mudanças e dificuldades enfrentadas pela população indígena pelo contato com a cultura dominante do não-indígena: “nós fomos muito prejudicados pela chegada e exploração da língua portuguesa. A gente tinha os nossos costumes, não tinha aquela preocupação de possuir as coisas. Vivíamos tranquilos, agora, a partir de que a gente teve o contato com o branco, a gente já tem essa preocupação de querer possuir as coisas. Com a chegada do português a gente já teve que abandonar certas coisas que a gente fazia. A gente fazia festa de semana a semana, porque não tinha geladeira, não tinha coisa pra acumular alimento, mas tinha coisa fácil. Por exemplo, tinha bastante tambaqui, pirarucu e essas coisa, e era fácil. Então, a gente vivia aquela vida e hoje nós não temos mais, muitos grandes pescadores destruíram, pegaram grande quantidade de peixe e caça, madeira na nossa região foi explorada. Então a gente sentiu esse impacto para a nossa cultura, a nossa sobrevivência.”, expõem Agenor.

Dentro desse contexto, de impacto da cultura não-indígena sobre os povos indígenas, o professor Eduardo Vasconcelos expõe a necessidade de fortalecer os métodos de revitalizar, manter e fortalecer as línguas indígenas que, enquanto minoritárias, sofrem grande pressão da Língua Portuguesa, enquanto majoritária e, historicamente, foram enfraquecidas por uma política linguística de assimilação. Dessa forma, a contribuição da Universidade Pública para a preservação e valorização das línguas indígenas compõe sua função social.

“A gente não pode ficar nas políticas do início do século XX, em que o SPI implantava escolas para ensinar Português. A gente tem que começar a fazer (e há algumas iniciativas) de avaliar essa escola dentro das terras indígenas, junto aos povos indígenas e que função ela tem ali. É o ponto dessa função social que a universidade pública tem que ter, ela não pode estar apartada da população. E o risco que a gente tem de avanço de uma política que tenta diminuir o espaço da universidade pública ou tenta tirar a legitimidade dessa Universidade é perigoso, porque a gente não espera que a iniciativa privada vá pensar a relação “português e línguas minoritárias, línguas indígenas”, quem vai pensar isso é pesquisador dentro da universidade pública”, reflete o professor.

Liderança dos Indígenas do Médio Purus, Valdimiro Apurinã destaca as contribuições mútuas entre comunidades indígenas e Universidade, para promover a preservação e o resgate das línguas e da cultura indígena e o sentimento de valorização que este diálogo com a comunidade acadêmica inspira: “Eu vi essa valorização das línguas indígenas. E o que eu vejo também é que tem como resgatar essas línguas que a gente esqueceu. Valorizar e colocar nas cartilhas essa valorização. Então eu vejo a gente participando de alguns setores, os companheiros que chegaram até lá com a gente, valorizando a gente e trazendo a gente aqui, essa oportunidade para a gente reconhecer o que está sendo feito, estudado”, analisou o também professor.

Para saber mais sobre o diálogo entre comunidades indígenas e universidade voltadas à preservação, valorização e revitalização de línguas indígenas, acompanhe esta edição do Ufpa Entrevista.

Apresentação: Fabrício Queiroz
Produção e roteiro: Susan Santiago
Gravação e montagem: João Nilo
Direção: Elissandra Batista e Fabrício Queiroz

O UFPA Entrevista vai ao ar todas às segundas-feiras e quartas-feiras, às 15h, e nas terças e quintas às 19h.

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