por Fabricio Rocha
Mestre em Comunicação – PPGCOM UFPA
Há pouco mais de vinte dias, plantaram um baobá no campus da UFPA em homenagem à professora Zélia Amador de Deus. Ela estava lá. Disse que aquela árvore falava de ancestralidade, de memória e “daqueles que vieram antes de nós”. Talvez ninguém imaginasse que tão pouco tempo depois aquele pequeno baobá passaria também a falar dela.
Zélia morreu hoje, aos 74 anos. E acho que seria muito pouco me despedir dela fazendo uma lista de títulos, cargos e homenagens. Professora, doutora, atriz, diretora de teatro, escritora, vice-reitora da UFPA, fundadora do Cedenpa, professora emérita… Tudo isso é verdade. Mas currículo nenhum explica Zélia.
Talvez seja melhor começar por uma menina negra.
A mãe era empregada doméstica. O avô havia sido vaqueiro no Marajó e depois virou operário da construção civil em Belém. A avó lavava roupa para ajudar no sustento da casa. Na escola, um dia Zélia quis participar de uma dança e ouviu da professora que seriam escolhidas apenas “as meninas mais bonitinhas e ajeitadinhas”. Zélia entendeu cedo o que aquilo queria dizer. E voltava para casa onde encontrava uma avó que lhe ensinava exatamente o contrário: não baixar a cabeça, gostar de si e ocupar os lugares.
Parece um detalhe, uma história comum de infância. Não é.
Talvez toda a vida de Zélia esteja um pouco dentro dessa cena.
Porque ela passou os setenta e poucos anos seguintes entrando em lugares nos quais, de uma forma ou de outra, alguém ainda estava dizendo que as meninas como ela não eram as “mais bonitinhas e ajeitadinhas” para estar ali.
Meus amigos, ela era muito queixo! E ela entrava mesmo assim.
Muito jovem, se envolveu com o movimento estudantil contra a ditadura. Conheceu organizações de esquerda e tem uma história maravilhosa, e muito reveladora, dessa época. Depois da Ação Popular, Zélia entrou para a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, a VAR-Palmares, a mesma organização do Lamarca. O raciocínio dela era mais ou menos óbvio: se uma organização clandestina carregava Palmares no nome, ali certamente se discutiria a questão negra.
Bem, vocês sabem, não se discutia. rs
Eles falavam de classe, revolução, proletariado, campesinato. Raça e gênero continuavam esperando na porta. Zélia foi embora.
Em outra dessas pequenas histórias que dizem muito sobre alguém, ela contou que aprendeu a ler inglês com a ajuda de um dicionário porque queria acompanhar a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Malcolm X e os Panteras Negras eram algumas de suas referências. Imagino a cena: uma jovem negra na Belém dos anos 1960 e 70, dicionário de inglês na mão, tentando alcançar por meio das palavras o que negros do outro lado do mundo estavam dizendo sobre liberdade.
Quando percebeu que os partidos não lhe davam a tribuna que precisava, encontrou outra.
O teatro.
Foi atriz, diretora e uma das primeiras alunas do antigo Serviço de Teatro da UFPA. Ela própria dizia que o teatro virou sua tribuna para discutir aquilo que a política não queria discutir. Depois, a tribuna virou o movimento negro. Depois, a própria universidade.
E é difícil falar de Zélia sem falar do racismo dentro da UFPA justamente porque ela nunca fingiu que ele não estava lá.
Quando disputou a direção do então Centro de Letras e Artes, ouviu discursos racistas tentando deslegitimar sua candidatura.Mas talvez o episódio mais absurdo tenha acontecido em 1992, quando concorreu à vice-reitoria. Apoiadores da chapa adversária montaram uma apresentação no ginásio da Universidade. Nela, Marcos Ximenes Ponte, nordestino, era representado como cangaceiro.
Zélia era Cheeta, a macaca dos filmes de Tarzan.(!)
Às vezes contamos a história das grandes conquistas e limpamos demais o caminho que levou até elas.
Zélia ganhou aquela eleição.
De 1993 a 1997, aquela mulher negra que haviam colocado no palco como uma macaca ocupou a vice-reitoria da Universidade Federal do Pará. Anos depois, quando outro homem negro chegou ao mesmo cargo, Gilmar Pereira da Silva lembrou publicamente que era apenas a segunda pessoa negra naquela função. A primeira tinha sido ela.
Zélia não apenas entrou.
Ela derrubou portas e barreiras para nossa geração.
Este talvez seja o ponto mais importante.
Porque a história dela se confunde com o Cedenpa, fundado em 1980, ano em que nasci. Organização do movimento negro na Amazônia, com a Conferência de Durban, na África do Sul e com a defesa das ações afirmativas. Dentro da UFPA, com uma batalha longa para que negros, indígenas e quilombolas deixassem de ser exceções dentro de uma universidade pública amazônica.
A primeira proposta encaminhada pelo Grupo de Estudos Afro-Amazônicos à UFPA, em 2003, previa reserva de vagas. Ficou em gavetas, encontrou resistência, reuniões sem quórum e uma administração contrária à proposta. Anos de insistência depois, as políticas avançaram. Zélia resumiu uma vez o resultado de forma quase simples demais para a dimensão da coisa: sem as cotas, cursos como Comunicação, Odontologia e Arquitetura poderiam continuar sem nenhum aluno negro.
Tive o privilégio de encontrar com ela todas semanas, enquanto ela estava na antiga Assessoria de Diversidade e Inclusão Social – ADIS. Eu era um dos estudantes atendidos pela divisão de transtorno do espectro autista e deficiência intelectual, num programa revolucionário que mudou minha vida.
Seu rosto está num mural no primeiro portão da UFPa, aquele da Avenida Bernardo Sayão, feito por grafiteiros. Não poderia estar num lugar melhor. Ela ajudou a mudar quem podia atravessar os portões da universidade.
E talvez aí apareça a imagem que Zélia mais gostava para explicar sua própria trajetória: Ananse, a aranha da tradição dos povos fante-ashanti que conquista as histórias e passa a distribuí-las. Zélia dizia que as teias eram também os fios de resistência que permitiram à população negra na diáspora sobreviver e contar sua própria história.
Djamila Ribeiro contou uma história bonita sobre isso. Em 2019, estava sofrendo ataques e perseguições nas redes sociais. Zélia foi encontrá-la num camarim da Feira do Livro, segurou sua mão e falou de Exu, dos caminhos e da necessidade de sermos “corpos insurgentes”, corpos que incomodam e abrem espaços. Poucas semanas atrás, Djamila voltou a Belém e encontrou Zélia em casa, na Cidade Velha. Levou uma flor lilás em homenagem a Nanã. As duas lembraram daquela conversa.
E é estranho pensar nisso hoje.
Porque justamente hoje, 8 de setembro, estava na pauta da Assembleia Legislativa do Pará um projeto para transformar a obra de Zélia em Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado. Enquanto o Parlamento discutia como preservar oficialmente sua obra, chegou a notícia de que Zélia havia partido.
Mas o patrimônio de Zélia já está preservado há muito tempo.
Está na estudante negra que entra na UFPA e já não precisa ser a única.
Está no quilombola fazendo Direito.
No indígena fazendo Medicina.
Nas pessoas que aprenderam que Amazônia também é negra.
No Cedenpa.
No teatro.
Nos livros.
Nas salas de aula.
Nas brigas que ela comprou quando era muito mais confortável ficar calada.
E agora está também naquele pequeno baobá plantado no Guamá.
Daqui a muitos anos, provavelmente ele será enorme. Gente que ainda nem nasceu vai passar por baixo de sua sombra sem saber imediatamente quem foi a mulher cujo nome está ali. Talvez alguém pare e leia a placa.
E descubra Zélia.
A menina que disseram não ser ajeitadinha o bastante para dançar.
A mulher que representaram como macaca porque ousou querer ser vice-reitora.
A mulher que não pediu para entrar, apenas entrou.
E que, depois de entrar, passou a vida inteira, ora segurando, ora deburrando as portas para que outros entrassem também.
Descanse, professora Zélia Amador de Deus.
A senhora abriu caminhos.
Agora são muitos os corpos insurgentes passando por eles.
Um beijo e obrigado por tudo.